Biografia do Fundador

Carioca, nascido em 10 de novembro de 1915, sempre teve um espírito alegre sombreado por um pouco de nostalgia que o ambiente geral do velho Rio sempre transmitia a seus filhos.
Desde criança tinha três grandes apegos: sua família numerosa; chegara ser padre para ajudar aos outros e mergulhar na natureza.
Costumava visitar doentes e pobres acompanhando sacerdotes ou Vicentinos. Muitas vezes ficava rezando numa casa humilde onde um morto ou doente pobrezinho fazia cair sobre todos, a penumbra da tristeza e da saudade antecipada.
A natureza era quase um perigo para Dom Jorge. Gostava de jardins e de campo, gostava de entrar pela mata e caminhos escondidos, de nadar nos rios e, sobretudo no mar. Adorava o mar. Por duas vezes contava ele, quase ficou no tendo escapado por sua calma fora do comum. Uma vez no Rio, em Paquetá e outra em Itanhaém. Mas sua paixão pelo mar jamais o deixou.

Dom Jorge Marcos Diocese de Santo AndréEntrou para o seminário de São Jose no Rio o de Janeiro no inicio de seus treze anos num velho casarão do tempo do império de cuja água furtada passava horas a fio olhando, absorto, nos feriados escolares, os barquinhos coloridos enfeitando as águas muitas e mansas da Guanabara.
Veio estudar em São Paulo, no seminário do Ipiranga em fevereiro de 1934, de onde voltou para o Rio em dezembro de 1940 para ser ordenado. Nesses 07 anos, das colinas vazias do Ipiranga adorava contemplar a noite, antes das últimas horas de estudo, as luzes distantes de São Caetano, São Bernardo e Santo André.

As quintas feiras havia passeio obrigatório para os seminaristas Dom Jorge então costumava ir ao museu ou vinha em direção a Santo André, levando horas de caminhada e muitas vezes chegando atrasado com os companheiros para o almoço.
Já sacerdote conheceu o interior do s Estado do Rio e minuciosamente os bairros da velha capital.
Foi ordenado na Igreja da Salete, por Dom Sebastião Leme, o grande cardeal brasileiro e paulista em 08/12/1940, teve como início de sua vida sacerdotal, dois dias após sua ordenação, um retiro de 16 palestras na capela do seminário São Jose foi uma espécie de introdução no grande campo da pregação religiosa.

Foi capelão nas igrejas da explanada do Senado, da explanada do castelo, do Colégio de Sion e da Igreja do Carmo ao mesmo tempo em que ensinava Latim, Português, Introdução a Literatura Brasileira e Visão Geral da Literatura Francesa. Durante esse período também foi assistente da JUC (Juventude Universitária Católica) e diretor das obras das vocações.

Em março de 1946 recebeu a comunicação de que fora escolhido para bispo auxiliar de sua Excia. O Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, arcebispo do Rio de Janeiro.

Então pelo espaço de 8 anos, teve aberto os caminhos das favelas e dos subúrbios cariocas. Este foi seu batismo de fogo, o encontro com o ambiente poético e marcado pelo desinteresse governamental criava verdadeiro ambiente de encanto e revolta no coração do bispo.
O povo simples, trabalhador, ganhando salários de Fome, famílias numerosas, resignação impressionante, barracos em desequilibro, chão de terra, esgoto a vista, falta de água e luz elétrica, ausência de assistência medica, tudo isso deixava o jovem bispo em verdadeira angustia.

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Chegada em carro aberto a Diocese de Santo André

Nomeado pelo Santo Padre Pio XII em 12 de agosto de 1954, como primeiro bispo de Santo André, tomou posse em 12 de setembro do mesmo ano. Chegou em carro aberto na companhia do cardeal Arcebispo, figura principal do Vaticano depois do Papa.
O povo esteve presente, sorridente, para conhecer o pastor.
A catedral iluminada, orquestra, coral de várias vozes enfeitavam a posse do primeiro bispo.
Foi seu primeiro contato com a cidade de Santo André, com os diocesanos de todas as cidades do ABC, cuja população estimada na época era de 350 mil habitantes.

Começou imediatamente seu pastoreio junto às doze paróquias da Diocese, procurou as empresas, os órgãos constituídos, atendeu o operariado, sensibilizou se com as crianças e o povo em geral.
Numa tarde o delegado chamou doze operários feridos em greve. Não era fácil evitar a violência no triangulo das industrias repletos de operários recém chegados, presas facílimas dos aproveitadores que careciam de vítimas para autopromoção.
Sindicatos efervescentes patrões rígidos, greves sem preparação e então choques, tiros, coquetéis molotov gente ferida…

Dom Jorge Marcos e os Operários. Visita a fábrica Dario Luiz Setti

Dom Jorge Marcos e os Operários. Visita a fábrica Dario Luiz Setti

Delegado único, amigo de quase todas as, famílias de Santo André, via-se constantemente em meio a greves, premido entre relações familiares e a força policial que batia, atirava e ia embora.
Começou então a participar dos movimentos, tornou se amigo de dirigentes comunistas, sindicalistas de várias origens, do grupo JOC (Juventude Operária Católica), estudantes, idealistas. Conheceu e admirou inúmeros patrões que sabiam valorizar o trabalhador.
Sofreu com ele, Sentiu se feliz ao termino de tantos movimentos difíceis. Quase todas terminavam em congraçamentos, acordos e um esforço para evitar as causas de novos choques.
Mas Dom Jorge conheceu também os traidores, quinta colunas dos setores patronal e sindical, vendilhões que se ofereciam a preço baixo, tanto para iniciar greve como para entregar grevistas. Encontrou também muita grandeza, idealismo, espírito da fraternidade e renuncia.

Em 1956 conseguia abrir no dia 18 de março a primeira casa da Associação Lar Menino Jesus. Eram 8 meninas enviadas pelo Dr. Madalena, então juiz substituto ao lado do titular Dr. Jesuíno Cardoso.

Toda Santo André colaborou: prefeito, câmara, fórum, polícia, sindicatos, comércio, indústria, igrejas, famílias ricas e pobres… Toda Santo André.Dom_Jorge_Marcos_Diocese_de_Santo_André_Associação_Lar_menino_Jesus

Dom Jorge trouxe consigo, do Rio, a coragem de lutar em favor dos injustiçados. Erguendo, pela primeira vez no Brasil a bandeira da doutrina social cristã, participou de inúmeras greves, jamais aceitando qualquer recompensa, ou mesmo pensando em gratidão. “Exemplo: na greve de Perus tirou a cruz episcopal que trazia em seu peito e ofereceu para ser vendida em prol da compra de alimentos para os grevistas”.
Era uma voz isolada no episcopado brasileiro e talvez no mundo, sofrendo sozinho, dentro da hierarquia as conseqüências naturais de suas posições a favor dos assalariados. Lutou vivamente, sem cor política, sem se deixar levar pela sedução do poder ou da gloria ate 1969, quando sua saúde bastante não lhe dava mais apoio em seus trabalhos, culminando com sua renúncia em 30 de dezembro de 1975 quando entregou a Diocese de Santo André com 72 paróquias para Dom Cláudio Hummes que era seu bispo auxiliar desde maio de 1975.
Em maio de 1976 foi acometido por mais um enfarte que o obrigou a fizer cirurgia cardíaca, recebendo uma ponte de safena que lhe deu condições de ficar mais um pouco entre nós.
Na qualidade de bispo emérito, continuou seu apostolado geral, ficando a disposição de Dom Cláudio Hummes nos trabalhos gerais da Diocese sempre que fosse solicitado.

Em 1983, foi pároco na capela de São Jose, na Vila Assis em Mauá onde atendia também todas as segundas feiras os doentes da Santa Casa de Misericórdia.
Seu trabalho incansável terminou em pleno domingo, após toda a sua atividade paroquial quando se preparava para descansar no final do dia. Era 28 de maio de 1989.

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Brasão

Dom Jorge foi uma figura notória na história do ABC. Quero acreditar que esta região ainda não sabe avaliar a dimensão de seus trabalhos nos 35 anos que ele passou entre nós.

Homem à frente de seu tempo, sempre esteve ligado às causas sociais. Dono de enorme sensibilidade emitia opinião sobre diversas questões, às vezes era incompreendido, mal interpretado, mas ele simplesmente cumpria o seu lema:
“Omnia in Christo” – Tudo em Cristo.
Amou profundamente Santo André e por diversas vezes disse que após sua morte queria repousar aqui. Deus o atendeu e ele está sepultado na Capela de São Jose, da Catedral do Carmo.
Amou esta cidade de Mauá sua querida capela de São José, na Vila Assis e seus doentes da Santa Casa. Era mais feliz no domingo porque passava a manhã toda nesta cidade, no meio da comunidade que também o amava.

 

 

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Concílio Vaticano II

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Dom Jorge no Concílio Vaticano II

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Datas Importantes:
Nascimento: 10/11/1915
Entrada no Seminário: 1929
Ordem Menores em Março de 1940
Ordenação Sacerdotal: 08/12/1940
Eleito bispo titular de Bagis em Maio de 1946
Sagrado Bispo aos 30 anos, em 27 de Outubro de 1946. Foi o mais jovem bispo da América Latina.
Bispo auxiliar do Rio durante 8 anos
Nomeado Bispo de Santo André – 12/08/1854
Com 21 anos de Bispado em Dezembro 1975 renunciou.
Faleceu dia 28 de Maio de 1989.

 

Folha de São Paulo - Carlos Heitor Cony

Folha de São Paulo – Carlos Heitor Cony

 

 

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